Quantos é que nós somos? el Sur e LBC Soldjah Homenagem a José Mário Branco


A pergunta formulada em 1987 pelo Zé Mário era um alerta e um balanço. Uma necessidade de seguir em frente fazendo as contas do que era ainda vívido no corpo, nem quinze anos depois dessa quinta-feira que esperou quarenta e oito para poder raiar.
E hoje, fintando a lógica da promoção de um disco acabado de sair mas em confinamento fora dos palcos e entre todas as sombras, a pergunta ganha urgência, acorda e volta a ecoar. Em Abril de 2020, novamente formulada por el Sur e LBC Soldjah, a pergunta não é de balanço. É de preparação. É uma pergunta íntima que interpela cada um.

Cada um dos que fizeram essa quinta-feira em 74 e cada um dos que dela nasceram, dos seus acertos, dos seus erros, dos seus trambolhões, da sua procura. Quantos somos? O que queremos? O que vamos construir e o que vamos permitir? Quais são as nossas emergências? Em que confinamentos as reconhecemos? Nas casas luminosas com uma varanda com vista para o rio ou nos tugúrios sem janelas onde se morre da falta de luz se não se morrer do vírus? No controlar o orçamento familiar para sobreviver ao trabalho suspenso ou no não poder deixar de trabalhar porque ninguém consegue escolher entre morrer do vírus e morrer de fome?

Gueto já era prisão, agora é solitária. E em cada uma dessas solitárias está um de nós. Em cada cama de beliche de pensão manhosa para refugiados, está um de nós. Em cada criança que à janela chama a plenos pulmões pelas pessoas que não vê na rua há mais de um mês, está um de nós. Em cada corpo amontoado nos transportes suburbanos sobrelotados e sem lugar a distâncias de segurança, está um de nós.

Para irmos juntos temos de nos contar. Para nos contarmos temos de nos ver. Do balanço à preparação, entre as senhas do dia inicial, a pergunta é emergência. Quantos é que nós somos?